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A Flor e a Náusea


Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Resenha: O Vestido

Título: O Vestido
Autor: Carlos Herculano Lopes
Editora: Geração Editorial
Páginas: 199
Ano: 2004



A resenha de hoje é de um livro que marcou minha vida de leitora por ter sido o primeiro livro que li, o livro que me despertou interesse pela leitura.

As sem-razões do amor


As sem-razões do amor


Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Autor da semana: Carlos Drummond de Andrade


O mineiro Carlos Drummond de Andrade foi poeta, contista e cronista. Nasceu em 31 de outubro de 1902. Se destacou com as poesias. Pertenceu ao movimento modernista.

Teve dois filhos, um deles morreu após meia hora, a quem é dedicado o poema “O que viveu meia hora”:
O Que Viveu Meia Hora 

Nascer para não viver
só para ocupar
estrito espaço numerado
ao sol-e-chuva
que meticulosamente vai delindo
o número
enquanto o nome vai-se autocorroendo
na terra, nos arquivos
na mente volúvel ou cansada
até que um dia
trilhões de milênios antes do Juízo Final
não reste em qualquer átomo
nada de um hipótese de existência.


Drummond foi expulso no Colégio Anchieta de Nova Friburgo RJ, simplesmente por não concordar com o professor de gramática. Formou-se em farmácia pela Universidade Federal de Minas Gerais mas não seguiu a profissão; foi funcionário público, começou a escrever cedo, e assim fez, até o falecimento em 1987 no Rio de Janeiro, poucos dias após a morte de sua filha Maria Julieta Drummond de Andrade, também cronista. 
 Sem sombra de dúvidas Carlos Drummond de Andrade foi, e é, muitíssimo importante para literatura brasileira. 

Alguns poemas: AmarAusência e Para Sempre


Amar

Que pode uma criatura senão entre criaturas, amar?
Amar e esquecer?
Amar e malamar
Amar, desamar e amar
Sempre, e até de olhos vidrados, amar? 
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
Sozinho, em rotação universal, se não rodar também, e amar?
Amar o que o mar traz à praia,
O que ele sepulta, e o que, na brisa marinha
É sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
O que é entrega ou adoração expectante,
E amor inóspito, o áspero
Um vaso sem flor, um chão de ferro, e um peito inerte
É a rua vista em sonho, é uma ave de rapina.
Este é o nosso destino:
Amor sem conta, distribuido pelas coisas
Pérfidas ou nulas,
Doação ilimitada a uma completa ingratidão,
E na concha vazia do amor a procura medrosa
Paciente, de mais e mais amor
Amar a nossa mesma falta de amor,
E na secura nossa, amar a água implícita
E o beijo tácito e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade

Para Sempre

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

Carlos Drummond de Andrade

Ausência


Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.


Autor: Carlos Drummond de Andrade
 
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